segunda-feira, 12 de novembro de 2012

Preciso aprender a dizer adeus



Nunca foi Tão fácil
Talvez nem tão difícil
Num gesto singelo, sem palavras,
Proferir o adeus.

Como dói, arranha a alma
Corrói a força e me enfraquece
Ainda assim terei que dizer
Adeus, pra sempre Adeus...

E os meus ais?
O teu  por quê
Como poderia deixar pra trás?
E os meus ais?
As minhas lágrimas?
Como vou enxugar o pranto
Ahhh o adeus não me permite a racionalidade.

Não me cobre uma postura elegante
Não venha me chantagear com proposta de amizade
NÃO QUERO SUA AMIZADE
Até já quis o seu amor
Ele não me pertecenceu
E ainda assim
Como posso dizer adeus?

Esse seu jeito de quem não quer nada
MAs que chega desavisado
E invade meus espaços, preenche as lacunas
Pelo mero prazer de apenas passar
Se sentir dono do que não quer
Me fazer referências tão formais
Como posso dizer adeus?

Tenho que aprender a ser mais eloquente
Mais dama, menos atrevida
Me atrevo a quebrar os pratos,
Arranhar seus discos,
Invadir seu sarau
Gritar que o amo
Implorar seu amor
E ver sua cara displicente se afastando

Preciso aprender a dizer adeus
Entender que ninguem pode dar o que não tem
Que ninguém é obrigado a amar
Quebrar janelas, pular os muros,
Arrancar os cabelos,
Borrar meu batom vermelho
E te xingar mil nomes
E dizer-te adeus


 

domingo, 9 de setembro de 2012

ROMANCEAR



Eu romanceio


Tu romanceias

Ele romanceia

Eu romanceio

Tu esqueceste o verbo

...Ela não romanceia mais

Eu romanceio

Tu me condenas pela minha passionalidade

E ela chega a rir por tanto romance desperdiçado

Em meio a tantos des-romances

Eu romanceio

tu não se apegas

E ela, hoje é apenas outra noite de encontros e desencontros



sexta-feira, 20 de julho de 2012

Como eu queria falar


Como eu queria falar
Do que trago escondido no coração
Do tanto que tenho pra dar
Como eu queria falar
Das noites em silêncio
Das lágrimas que chorei
Dos desejos que contive
Das verdades que criei
E o medo me fez calar
Fui desenhando um mundo
Contornado muros altos
Segredos velados
Crimes não confessados
Palavras contidas
Das sensações perdidas
Eu precisava calar
Como eu queria falar
Enfrentando o mundo sem freios
Sem precisar de tantos rodeios
Sem ter que pintar de rosa o cinza escuro
Sem me esconder
Apenas falar

Melodramática


Procurava
Buscava 
Procurava
E se encontrava...
Paixões, ilusões, refrões de boleros
Fados
Sonetos ou nada
Quase nada...
Eram canções
Dessas melodramáticas
Assoviadas 
Ou entrecortadas pelo choro
A noite, sua namorada
Era sua vocação pra solidão

Mas não se morria de paixões
Apenas restaria depois do fim
Rejeitos sentimentais
Tarde demais
Bastaria o primeiro olhar

Voltar atrás remediaria
Mas, se não há remédio
É porque remediado está 
A melodramática arte de se apaixonar
E ande onde andar
Buscando ou sem buscar
Cansado de perguntar
Melhor seria a mentira
A emblemática arte de disfarçar
As falíveis armas da paixão
Tentadas em vão
Usadas para escapar
Do que já não escapatória
Essa melodramática vontade de se apaixonar

sábado, 9 de junho de 2012

      Prisioneira do olhar


   Ela ate quis se defender. Atrás da sua máscara usual, desempenhou um dos seus papéis prediletos; era comum vestir-se de personagens, sua armadura infalível, pensava ela.
        Com uma postura imperiosa, ar displicente, conseguia passar incólume aos olhares de todos. 
        Custara, mas aprendeu. Foi costurando à sua, faces diferentes, cada uma com características próprias, tão diferentes da sua. Era tão boa nisso que já não sabia quem era de verdade: as faces que vestia ou a que estava escondida por baixo delas.
        Suas dores causa do choro compulsivo e dos olhos vermelhos, foram maquiadas de um humor sarcástico, ácido. Seus sonhos foram dissimulados em metas e objetivos frios e calculáveis. 
Aos poucos foi se acostumando. Não se via mais desnuda. Evitava os espelhos. Só ela sabia o que seu reflexo significava, as histórias dolorosas que ele trazia. 
        Tão convencida estava do seu talento teatral que subestimou aquele olhar. Bastou apenas um, e sua nudez veio à tona, ruborizando-a e constrangendo-a por se ver exposta contra à sua vontade. Tanto tempo escondida e sua defesa caiu revelando a mulher que ela tinha medo de ser.
        O dono do olhar não tinha pretensões escusas e se havia segundas ou terceiras, até aquele momento ao menos, não estavam reveladas. 
Então porque despí-la assim? Deixar evidente suas fraquezas sem que ela ao menos soubesse porque?
Essa seria uma pergunta que ela não saberia responder.
Mas aquele olhar, prendeu em si seu reflexo nú e com ele todos os seus segredos e sua verdadeira identidade, sua história e seu coração. 

Janela de vidro




Atrás da janela de vidro
A noite parece mais negra
As luzes vão se espaçando como gotas de orvalho
Vão clareando as idéias aqui e acolá
O asfalto sem fim vai distraindo o pensamento
Eu ali protegida pela transparencia do vidro
Frágil como ele

sábado, 5 de maio de 2012

Carta de uma idosa acamada à sua enfermeira


Hoje de manhã ela chegou diferente. Não sei, mas estava mais triste que o comum. Geralmente ela chega sorridente, brincando e fala comigo. Me chama pelo nome. Dificil encontrar pessoas que me chamam pelo nome, geralmente as pessoas chegam, colocam as mãos na minha perna e me tratam como um corpo indigente. Dá uma vontade de gritar: Ei, estou aqui e tenho nome.
Aos poucos notei que ela foi se rendendo, me lançou um sorriso e disse: - Hoje vamos tomar uma chuverada. O que? Chuverada? Demorada? Depois do início da minha doença e ficar acamada por causa do Alzheimer essa era a primeira vez que ia sentir a gostosa sensação da água abundante e morna do chuveiro. Geralmente é so a duchinha, um paninho. Será?
Com cuidado ela tirou minha roupa, me colocou na cadeira e ligou o chuveiro. Senti a água correr farta pelas minhas costas, molhou meu cabelo, me cobriu por inteiro. De olhos fechados me lembrei de como gostava de passar um tempo debaixo da ducha. Era um tempo só meu, sem filhos, marido e responsabilidade, um tempo só meu.
Lavou meus cabelos, fez massagem nas minhas costas e nos meus pés, fiquei mais um tempo curtindo meu chuveiro. Até esqueci o quão desconfortável é a cadeira de banho. Quem faz essas cadeiras deveria passar ao menos uma hora sentado nelas para saber o que sofro.
Terminou meu banho, me arrumou, perfumou, e, apesar das minhas reclamações não polpou creme hidratante. Ela sempre faz isso.
Mas havia algo errado com ela hoje.
Fez meu suco, caprichou na minha sopa, e a sobremesa estava uma delícia.
Fechou a janela, cobriu-me com um lençol e me pediu que dormisse um pouco. Mas eu estava incomodada, Quis falar mas as palavras não saiam, quis perguntar, oferecer os conselhos que só a experiência que vem com a idade me permitem. Fiquei revoltada, o AVC me tirou a capacidade de andar, falar, mexer completamente. Ela ficou ali do meu lado velando meu sono.
Então mais tarde na hora do lanche ouvi quando ela comentou com meu marido que ficava revoltada por meus filhos não virem me visitar. Que era apegada aos avós e que estava triste pela minha situação.
Então me lembrei de quando eles eram crianças, das noites insones velando o sono, das gripes, quedas, travessuras. Da felicidade e orgulho no casamento, formatura e no nascimento dos netos e netas.
Hoje, aqui nessa cama, vejo os dias passarem longos rogando a deus que me leve. Do meu lado meu marido, parece que o tempo não diminuiu nosso amor, mudou de forma, mas nao de intensidade.
Ela me confidenciou outro dia que não se sente amada, perguntou o que eu havia feito para conquistar o amor da minha vida. Com os olhos quis lhe transmitir que cada um tem o seu destino e que, com certeza ela deveria ter sido amada, muitas vezes so que de maneiras diferentes àquelas que estava acostumada.
Chegou a hora dela ir, sei porque vejo a noite chegando pela janela, o friozinho que percorre minha pele, mas ela veio ao meu quarto, alisou meus cabelos, cobriu minhas pernas e me disse: - até amanhã.
Eu sabia que ela ainda estaria comigo por algum tempo e, de certa forma, sei que Deus nos colocou uma no caminho da outra; ela no meu para me proporcionar dias agradáveis e ser tratada como uma pessoa viva e não uma moribunda como a maioria Eu no dela, para ensinar-lhe a linguagem da alma, a sutil linguagem de falar com o olhar.
Até amanhã.